Texto Crítico

A arte pode ser cruel. Afirmo isso ao me deparar com as obras da Série Entre mares. As fotografias e os mosaicos em tecidos, constituídos por azuis profundos, fragmentos arquitetônicos e bordados, conduzem o olhar e o imaginário do observador para encontros inusitados com o peculiar território poético criado pelo artista. No deambular por esse domínio, a arte e a ideia de crueldade surgem como forças antagônicas e complementares. Esse binômio, além de se estabelecer na poética visual de cada obra a partir de vértices opostos, no seu conjunto consegue potencializar a criação de zonas de convergências, de afinidades e de enfrentamentos. No estranho, anormal e imprevisível encontro, a história e a geografia, atravessadas pela arte, definem o fio condutor da narrativa imagética. Porém, há algo mais avassalador e paralisante firmado no somatório dessas obras, que lhes garantem múltiplas humanidades. Elas dão conta de Ecos de vidas que existiram, de vidas que estão em curso, de vidas que se foram, de vidas que estão sendo exterminadas pela fobia, ojeriza e barbárie que se fazem presentes e remontam às heranças deixadas por percursos ou sujeitos históricos que, hoje, insistem em intoxicar e macular a vida em sociedade. Quando, nesta escrita, recorro à ideia de trajetórias históricas, exploro o que se fez e faz realidade nas relações culturais e territoriais firmadas entre continentes, que a Série oferece aos nossos sentidos. Num exercício visual em que tempo-espaço são arestas essenciais às obras, vêm à mente a brutalidade, as tiranias, as atrocidades; afinal, é impossível não ser arremessado pelas imagens, aos acontecimentos e ao próprio espólio deixado pelo processo colonizador que costurou a história desse Brasil e das demais nações que sofreram o mesmo impacto, sendo elas também subtraídas de “existências” fundamentais para que pudessem registrar a história do seu próprio corpo como também, os corpos do seu povo. As memórias das dores causam repulsa e são constantes em nossos cotidianos, no estar e no ser de corpos que sentem o peso de um legado aterrador. Tal perspectiva histórica demanda uma noção do corpo que necessita ser vivenciado de forma vigilante e presente. O desafio, portanto, apresentado ao observador pela exposição e suas múltiplas camadas de imagens, reforça que a vitalidade desse corpo, seja ele presente hoje, ou apenas uma memória remota, deflagra aberturas e invenção de paisagens, indica interseção de temporalidades e acusa diferentes espacialidades à guisa de serem ocupadas por toda e qualquer existência de vida. Tal complexidade deve ser redimensionada para além de um tempo colonial pretérito, pois o que está em jogo nessas fotografias e mantos-imagens-bordados são as colonialidades que ainda insistem em se fazer presentes, em permanecer arraigadas não apenas no “tempo-agora”, mas em um tempo-futuro, um tempo-espaço que está por vir, um processo inter-relacionado às complexas camadas de uma “história-Brasil-colonial”, que, por sua natureza e conteúdo, precisam ser reificadas, refundadas para serem (re)interpretadas por uma outra conjuntura social, por formas de pensar que subvertam tragédias cotidianas que a sociedade brasileira ainda é obrigada a viver. O corpo do artista segue adiante no decurso dessa reificação, desse refundar. Esse corpo costura as margens dos tecidos, agrupa fotografias, tece roteiros, constrói múltiplas dramaturgias. Mas isso não é tudo. A necessidade desse corpo de ir além é contínua: atravessar mares, revelar trajetos, abrir (im)possibilidades discursivas sobre percursos nos quais o seu corpo é dissidente. Tal dissidência ganha status de obrigação. Essa exigência, que me parece ser lida como um compromisso, uma responsabilidade, um ônus, é visivelmente imputada pelo processo criativo do artista. Mas a jornada não está terminada. A dinâmica de conceber outras viabilidades, de (re)começar, se mantém quando as obras ficcionam realidades como forças potencializadoras da própria existência, sem que sejam ignoradas em nenhum momento as vivências, as ausências ou tudo aquilo que foi usurpado, destruído e abatido do outro. É valioso perceber que os trabalhos, além de capturar nossos sentidos, também resgatam algo indecifrável de nós mesmos, sobretudo no momento em que encontramos neles “ecos de nossos passados”. Talvez seja a partir dessas antevisões que seremos capazes de interpretar do que somos feitos enquanto nação, quais as nossas resistências, angústias e o que, de fato, nos foi subtraído. Ao (re)formular e (re)fazer caminhos, surge a opção de evocar as experiências que foram vividas individualmente e aquelas aqui representadas em cada imagem dessa Série. Uma vez delas imbuída, qualquer tipo de manifestação é viável, possível. Portanto, ser perverso, contumaz, obstinado ou perseverante, na escolha de continuar habitando essas epistemologias, oferece o benefício de reconhecer que a paz contínua e duradoura, assim como a ideia de plenitude soam apenas como uma ausência atroz, uma ficção ou miragem que desponta fugidia no horizonte.

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Maruan Sipert 

Bailarino e Bacharel em Dança pela  UFRJ

 

 

Rubens de Andrade

 Professor Adjunto da Escola de Belas Artes/UFRJ